M&A em energia: como a inteligência artificial está aumentando a demanda elétrica e transformando as utilities

M&A em energia: como a inteligência artificial está aumentando a demanda elétrica e transformando as utilities

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O setor elétrico brasileiro vive um ciclo de expansão sem precedentes. Em 2024, as fusões e aquisições (M&A) de companhias de energia totalizaram 72 operações, representando o maior número dos últimos 30 anos e um crescimento de 41% em relação ao ano anterior, segundo dados divulgados pela imprensa econômica com base em levantamento setorial. Em 2025, o movimento ganhou ainda mais força: entre janeiro e novembro, o volume financeiro transacionado subiu 18% na comparação anual, superando US$ 52 bilhões em negócios fechados em todo o mercado brasileiro, com energia e recursos naturais respondendo pela parcela mais relevante do total, de acordo com o levantamento da boutique Seneca Evercore, publicado pelo InfoMoney. Por trás desse dinamismo, convergem três forças estruturais: a descarbonização da matriz global, a busca por segurança energética e, de forma cada vez mais dominante, a explosão da demanda elétrica provocada pela inteligência artificial (IA).

A IA deixou de ser uma tendência tecnológica para se tornar um vetor de transformação da infraestrutura física do planeta. Os chamados data centers de alta performance, instalações que abrigam os servidores responsáveis pelo treinamento e pela execução de modelos de IA, consomem entre 40 kW e 120 kW por rack, enquanto um data center tradicional de computação em nuvem operava com densidades de 5 a 10 kW por rack. Essa diferença de escala converte os novos complexos de IA em cargas industriais pesadas, comparáveis a fundições de alumínio, que exigem conexões diretas em alta tensão e transformam completamente o planejamento da rede elétrica.

De acordo com o relatório Energy and AI da Agência Internacional de Energia (IEA), publicado em abril de 2025, os data centers consumiram cerca de 415 TWh em 2024, equivalente a 1,5% de toda a eletricidade produzida no planeta, com taxa de crescimento de 12% ao ano desde 2017. O mesmo relatório projeta que esse consumo atingirá cerca de 945 TWh até 2030, isto é, mais do que dobrando em menos de seis anos.

No Brasil, o impacto já é mensurável e crescente. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) projeta que a demanda de data centers no país pode chegar a 16 GW até 2038, partindo de uma capacidade instalada de aproximadamente 580 MW em 2024. Esse salto de quase 28 vezes em pouco mais de uma década redesenha as premissas do planejamento energético nacional, pressiona a expansão da rede de transmissão e, consequentemente, reposiciona a lógica de valor em qualquer processo de M&A envolvendo geradoras, distribuidoras e transmissoras. Setores que antes eram vistos como negócios regulados, estáveis e de crescimento limitado passam a ser disputados com a urgência e os múltiplos de infraestrutura estratégica da era digital.

Diante disso, neste artigo abordaremos como a IA está transformando a demanda elétrica no Brasil e no mundo e de que forma esse fenômeno está reescrevendo a tese de investimento nas utilities (as empresas de serviços de energia). Além disso, discutiremos as principais transações de M&A que ilustram essa nova lógica, como o valuation dessas companhias está sendo impactado e os desafios tanto regulatórios quanto operacionais que acompanham esse ciclo. Por fim, apresentaremos as melhores práticas para conduzir uma due diligence (diligência prévia) nesse ambiente em rápida transformação.

A nova equação energética da inteligência artificial

Para compreender o impacto da IA sobre o setor elétrico, é necessário entender a diferença técnica entre os dois grandes tipos de carga computacional. O treinamento de modelos de linguagem, que é a fase em que o sistema processa enormes volumes de dados para aprender padrões, representa uma carga episódica, intensa e geograficamente concentrada. Já a inferência, que ocorre quando o modelo já treinado responde a perguntas dos usuários em tempo real, é uma carga distribuída, recorrente e que cresce de forma proporcional à adoção da tecnologia.

Em 2025, a IA ainda respondia por cerca de 25% das cargas dos data centers, impulsionada majoritariamente pelo treinamento de modelos. Segundo o relatório Key Questions on Energy and AI, publicado pela IEA em 2026, a demanda elétrica de data centers focados em IA cresceu 50% apenas em 2025, e o consumo total do segmento deve dobrar até 2030.

Em termos financeiros, essa transição é determinante para o setor elétrico: enquanto o treinamento é um dispêndio de capital pesado e episódico, a inferência representa uma demanda recorrente que cresce junto com a base de usuários.

No plano da infraestrutura física, a densificação energética dos data centers de IA criou um problema estrutural nos sistemas elétricos do mundo desenvolvido. Nos Estados Unidos, concessionárias passaram a cotar prazos de até 12 anos apenas para estudar a viabilidade de uma interconexão de grandes cargas, conforme relatos de grandes empresas de tecnologia divulgados pela imprensa especializada.

Em uma decisão reafirmada em abril de 2025, a Federal Energy Regulatory Commission (FERC) — a agência regulatória de energia dos EUA — rejeitou um pedido da Amazon para usar a capacidade de uma usina nuclear para abastecer diretamente seus data centers, deixando claro que o planejamento de rede concebido no século XX não está preparado para a velocidade exponencial da adoção da IA.

Nesse contexto, a IEA destaca que a despesa de capital agregado de apenas cinco grandes empresas de tecnologia superou US$ 400 bilhões em 2025 e deve crescer mais 75% em 2026. Esses dados trazem à tona a dimensão do ritmo de investimento que pressionará os sistemas elétricos nos próximos anos.

O Brasil, nesse contexto, emerge como uma das jurisdições mais atrativas do planeta para abrigar esse novo ciclo de investimento. A matriz elétrica nacional tem aproximadamente 85% de geração renovável, com predominância hídrica, e os custos de energia ainda são competitivos quando comparados a jurisdições europeias e norte-americanas. Além disso, o país concentra 48% da capacidade instalada de data centers da América Latina e 71% dos empreendimentos em construção, conforme dados do relatório da consultoria JLL citados pela imprensa brasileira. A proximidade de cabos submarinos internacionais em Fortaleza, que conectam a América Latina à Europa e à América do Norte, confere ao Nordeste brasileiro uma vantagem estratégica adicional para aplicações de IA que exigem baixa latência de comunicação.

A pressão sobre a rede e o gargalo de transmissão

O crescimento acelerado da demanda de data centers no Brasil colide com uma realidade técnica que nenhum processo de M&A pode ignorar: a rede de transmissão não estava dimensionada para esse ritmo de expansão. A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) alertou que, sem a ampliação da infraestrutura, não haverá pontos disponíveis para a conexão de novas cargas ao Sistema Interligado Nacional (SIN) até 2029.

Em resposta, a EPE concluiu, em dezembro de 2024, uma análise que recomendou reforços na rede elétrica das regiões de Campinas, Jundiaí e Bom Jardim, liberando uma margem adicional de 1.000 MW para novos projetos. Antes disso, em fevereiro do mesmo ano, um estudo havia identificado soluções para aumentar a confiabilidade do sistema na região metropolitana de São Paulo, considerando uma expansão estimada em 500 MW de demanda de data centers naquela área.

Vale notar que os data centers são, por natureza, cargas de base: operam 24 horas por dia, sete dias por semana, com fator de carga próximo a 1 e sem as variações sazonais ou horárias que caracterizam a demanda industrial ou residencial. Essa previsibilidade é um ativo operacional do ponto de vista da geradora ou transmissora contratante, mas exige contrapartida em termos de confiabilidade do fornecimento, já que qualquer interrupção representa perda de dados e custos de reputação para o operador.

Por isso, data centers de grande porte tendem a exigir conexões em alta tensão diretamente à rede básica, além de soluções de redundância que elevam o custo total de conexão, mas que, por outro lado, justificam contratos de suprimento de longo prazo com cláusulas de indexação e preço fixo em dólar, estruturas financeiramente atrativas para os vendedores de energia.

A reconfiguração das utilities e o novo ciclo de M&A em energia

As utilities — empresas de serviços públicos de energia que incluem geradoras, transmissoras e distribuidoras — estão sendo obrigadas a repensar suas estratégias em função de três vetores simultâneos: a transição para fontes renováveis, a chegada de grandes consumidores industriais digitais e a necessidade de modernizar a infraestrutura de distribuição para acomodar a geração local de energia e os veículos elétricos. Cada um desses vetores, isoladamente, já seria suficiente para motivar um ciclo de M&A. Combinados, eles criam uma pressão de consolidação que tende a concentrar ativos em mãos de poucos operadores com escala, capital e competência técnica para executar as transformações necessárias.

O exemplo mais emblemático desse movimento no Brasil é a fusão entre a Auren Energia e a AES Brasil, anunciada em maio de 2024 e concluída em outubro do mesmo ano. A operação, avaliada em R$ 6,35 bilhões, criou a terceira maior geradora de energia privada do país, com capacidade instalada de 8,8 GW e portfólio composto por ativos hídricos (54%), eólicos (36%) e solares (10%).

A Auren, controlada pela Votorantim e pelo CPP Investments, adquiriu uma geradora 2,4 vezes maior do que ela própria, elevando a alavancagem inicial para cerca de 4,9 vezes a relação entre dívida líquida e EBITDA (isto é, lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização). As sinergias corporativas estimadas somam R$ 1,2 bilhão em valor presente líquido, e a meta é atingir a faixa de 3 a 3,5 vezes de alavancagem até 2027-2028. Conforme relatado pelo Invest News, a empresa já havia captado R$ 154 milhões em sinergias no primeiro semestre de 2025, superando sua meta inicial e revisando para cima sua projeção anual para R$ 250 milhões.

A lógica estratégica por trás dessa e de outras operações semelhantes é direta: quanto maior o portfólio diversificado de geração, maior a capacidade de oferecer contratos de energia de longo prazo — os chamados contratos PPA (Power Purchase Agreement, ou contrato de compra de energia) — a grandes consumidores industriais e digitais. Os data centers de hiperescala e de IA demandam exatamente este tipo de contrato: volumes expressivos, previsibilidade de preço, indexação, prazos de 10 a 20 anos e, preferencialmente, certificação de energia renovável. Isso cria um círculo virtuoso, pois geradoras renováveis de grande porte têm acesso prioritário às demandas de IA, que remuneram o ativo com fluxo de caixa de longo prazo e sustentam valuations elevados, permitindo novas rodadas de aquisição.

Além da Auren, outras movimentações relevantes marcaram o setor em 2024 e 2025. A Eletrobras concluiu a aquisição completa da Eletronet, empresa de fibra óptica integrada às linhas de transmissão, conforme comunicado apresentado à Securities and Exchange Commission (SEC) em dezembro de 2024. Essa operação reforça a tese da companhia de explorar sinergias entre energia e conectividade digital com menção explícita a data centers e IA como mercados-alvo.

Nessa mesma linha, a CNN Brasil reportou que o setor de energia e recursos naturais também viu a Copel e a Neoenergia movimentarem ativos hídricos no Paraná em 2025, enquanto o segmento solar registrou crescimento de 76% em transações de M&A ao longo do ano, impulsionado pelos leilões da ANEEL e pelos incentivos do Novo PAC. No acumulado, o setor de energia respondeu pela fatia mais relevante do volume total de M&A no Brasil em 2025, segundo dados divulgados pelo Brazil Economy.

Valuation em transformação: novos múltiplos para um setor em aquecimento

A chegada dos data centers de IA como grandes consumidores está alterando a forma como o mercado atribui valor às companhias do setor elétrico. Historicamente, as utilities eram avaliadas com múltiplos conservadores pelo indicador EV/EBITDA, isto é, o valor da empresa dividido pelo EBITDA, variando entre 6x e 10x, típicos de empresas reguladas com crescimento limitado.

No ciclo atual, ativos com contratos PPA de longo prazo com grandes consumidores de IA passaram a negociar com prêmio substancial. Globalmente, os chamados data center REITs — fundos de investimento imobiliário especializados em data centers —viram seus múltiplos de valor se expandirem para a faixa de 25 a 40 vezes o fluxo de caixa, impulsionados pela tese de demanda de energia para IA, de acordo com a análise de operações globais de M&A acompanhadas pela imprensa especializada.

Ao analisar a Auren em outubro de 2025, o JP Morgan destacou a enorme dispersão nos cenários de valor justo da ação, com o pessimista em R$ 5,60 e o otimista em R$ 22,20. Essa amplitude reflete a exposição do setor a variáveis climáticas, como chuvas e velocidade dos ventos, ao risco de curtailment, redução forçada de geração por restrições de rede, e ao risco regulatório associado à Medida Provisória nº 1.304/2025, que reduz gradualmente incentivos às renováveis.

Adicionalmente, a alta alavancagem pós-fusão cria pressão sobre o fluxo de caixa livre, limitando a distribuição de dividendos e aumentando a sensibilidade da empresa ao custo do crédito. Para o M&A, isso significa que a tese de criação de valor por meio de consolidação é real, mas exige que o modelo financeiro incorpore sensibilidades a variáveis não controláveis, algo que uma análise de múltiplos de mercado, por si só, não consegue capturar.

Due diligence em energia no contexto da IA: novos ângulos de análise

A due diligence em processos de M&A em energia sempre foi tecnicamente exigente, tanto pela natureza regulada dos ativos e pelos contratos de longo prazo quanto pela dependência de variáveis hidrológicas e meteorológicas. Com a chegada dos data centers de IA como clientes estratégicos, novas camadas de análise se tornam indispensáveis, de modo que equipes assessoras que não as dominem correm o risco de precificar o ativo de forma inadequada, seja deixando valor na mesa, seja superestimando a resiliência do fluxo de caixa.

O primeiro ângulo é a qualidade e a estrutura dos contratos de energia. Contratos PPA com grandes consumidores digitais podem ter cláusulas take-or-pay, que obrigam o pagamento mesmo sem consumo efetivo, garantindo receita independentemente do despacho físico. Por outro lado, esses documentos podem conter cláusulas de redução gradual de preço ao longo do contrato ou de rescisão antecipada em caso de mudanças regulatórias, as quais precisam ser mapeadas com precisão. A qualidade dos lucros — análise que avalia o quanto do EBITDA reportado é recorrente e sustentável em contraste com itens não operacionais ou sazonais — é especialmente crítica em geradoras com alta exposição ao mercado livre, onde os preços flutuam conforme a hidrologia do sistema.

O segundo ângulo é regulatório. A conexão de data centers de grande porte à rede básica ainda está em evolução normativa no Brasil. A Resolução Normativa ANEEL nº 1.122/2025 introduziu uma nova versão das regras de acesso à rede básica. Ao mesmo tempo, os pedidos de conexão acumulados no portal do Ministério de Minas e Energia chegaram a 53 GW de cargas potenciais mapeadas para 2038, segundo a EPE.

Esse volume ainda passará por processos de triagem e aprovação cujos prazos e critérios não estão totalmente estabelecidos. Um comprador que avalie uma geradora com projetos de expansão voltados ao atendimento de data centers precisa mapear com precisão a situação dos pedidos de acesso e o prazo esperado para conexão, sob pena de superavaliar a capacidade que pode demorar anos para gerar receita.

O terceiro ângulo é o da sustentabilidade e do consumo hídrico. Muitos data centers de grande porte utilizam sistemas de resfriamento a água que podem consumir volumes equivalentes aos de pequenas cidades, gerando pressão ambiental especialmente em regiões sujeitas a estresse hídrico. Para as geradoras que abastecerão essas instalações, a dependência de reservatórios hídricos, já sob pressão de secas mais frequentes, traz risco de descasamento entre oferta e demanda que precisa ser modelado nos cenários de valuation.

Adicionalmente, grandes empresas de tecnologia, como a Amazon, o Google e a Microsoft, exigem certificações de energia 100% renovável, o que direciona a demanda para geradoras com matriz limpa e mecanismos de rastreabilidade, elevando o prêmio dos ativos que possuem essas características.

O cenário global e as implicações para o Brasil

No plano internacional, o M&A em energia, envolvendo utilities e infraestrutura, representa um novo paradigma em função da corrida por energia para IA. O consórcio liderado pela Blackstone Infrastructure adquiriu a TXNM Energy — concessionária regulada dos Estados Unidos — por US$ 11,5 bilhões, em uma transação que a precificou a 1,8 vez sua base tarifária regulatória, ilustrando o apetite de fundos de infraestrutura por ativos regulados com exposição à tendência de eletrificação e à demanda de IA.

Em paralelo, grandes empresas de tecnologia têm buscado garantir acesso à energia de base de forma direta: o Google investiu em uma rodada de US$ 462 milhões na Fervo Energy, empresa de geotermia, em busca de geração contínua e independente de condições climáticas para seus data centers de treinamento de IA.

Nesse contexto, o Brasil ocupa uma posição estratégica, mas não isenta de riscos. A vantagem da matriz renovável é real e significativa do ponto de vista dos custos de carbono e dos critérios ESG (ambientais, sociais e de governança); porém ela depende de avanços concretos na infraestrutura de transmissão para se converter em receita.

Países concorrentes na atração de data centers, como Chile, Colômbia e México, também avançam em relação aos incentivos regulatórios e oferecem, em alguns casos, maior certeza de prazo de conexão. O risco de oportunidade perdida é concreto: se o Brasil não resolver o gargalo de transmissão Nordeste-Sudeste e não criar um processo mais ágil de acesso à rede para grandes cargas, os investimentos de IA podem migrar para jurisdições que, mesmo com energia mais cara, oferecem maior previsibilidade operacional.

Por outro lado, a interdependência entre a rede elétrica e a infraestrutura de dados cria uma nova dinâmica para o M&A doméstico, com a valorização de ativos que possuem Parecer de Acesso válido ao sistema de transmissão, ou seja, autorização técnica para conexão, independentemente do estágio de construção da usina.

A escassez de pontos reais de conexão tende a inflar o valor desses ativos nos próximos anos, propiciando oportunidades para investidores que identifiquem, com antecedência, geradoras ou transmissoras com pontos de conexão disponíveis em regiões de alta concentração de demanda digital.

Nesse sentido, o planejamento energético brasileiro — por meio do PDE (Plano Decenal de Expansão de Energia) — precisará, pela primeira vez, incorporar a variável estocástica e expressiva da demanda computacional global como um dos vetores de expansão da rede.

Melhores práticas para M&A em energia no ciclo da IA

Para gestores, investidores e assessores financeiros que atuam em transações do setor elétrico neste novo ciclo, algumas práticas se tornam determinantes para a qualidade da decisão de investimento.

A primeira é mapear a exposição direta e indireta a data centers. Em um processo de due diligence, não basta identificar se a geradora ou distribuidora tem contratos com data centers. É necessário qualificar a natureza dessa demanda, verificando se é de treinamento (mais episódica) ou de inferência (recorrente), se os contratos têm cláusulas de previsibilidade de volume, bem como o prazo de vencimento e a probabilidade de renovação.

O valuation de um ativo cuja receita futura está atrelada à demanda de IA deve utilizar cenários alternativos que contemplem crescimento acelerado, crescimento moderado e desaceleração tecnológica para capturar a dispersão de resultados. Essa abordagem, possível por meio de modelos bem estruturados de fluxo de caixa descontado, permite maior precisão do que a simples aplicação de múltiplos de mercado.

A segunda prática refere-se à realização de uma análise rigorosa da situação regulatória de conexão. Projetos de expansão cuja viabilidade depende de novos pontos de conexão ao SIN devem ter o prazo esperado de conexão e os respectivos custos de reforço de rede explicitamente incluídos no modelo financeiro. Isso significa, por exemplo, que uma geradora solar com 500 MW de capacidade licenciada no Nordeste, mas com conexão ao sistema prevista para 2029 e dependente de licitação de nova linha de transmissão, não pode receber o mesmo múltiplo de uma usina hídrica já conectada e contratada no ACR (Ambiente de Contratação Regulada).

A terceira prática é incorporar sensibilidades climáticas e hidrológicas de forma explícita. Modelos de valuation que projetam geração eólica ou solar com base apenas em médias históricas subestimam o risco de curtailment e de variação de geração nos anos de estresse hídrico. A fusão entre a Auren e a AES Brasil, por exemplo, envolveu a modelagem de riscos climáticos que resultou em R$ 800 milhões em contingências adicionais no contrato, conforme relatado pela CNN Brasil. O uso de cenários probabilísticos, já adotado por assessores técnicos especializados, como a consultoria PSR, é a abordagem mais robusta para esse tipo de ativo.

Por fim, é importante avaliar a qualidade da governança e dos sistemas de conformidade regulatória. O ambiente regulatório do setor elétrico brasileiro é dinâmico e complexo, com interação entre ANEEL, ONS, EPE e Ministério de Minas e Energia. Empresas que possuem estruturas de governança robustas, controles internos auditados e relacionamento sólido com o regulador tendem a navegar melhor nas transições normativas e, portanto, apresentam menor risco na perspectiva do comprador.

Energia como infraestrutura estratégica da era digital

A convergência entre a revolução da IA e a necessidade de expansão do setor elétrico não é uma tendência passageira, mas uma reconfiguração estrutural da economia global. O Brasil — com sua matriz renovável, sua escala territorial e sua crescente relevância como hub digital da América Latina — está posicionado para capturar uma parcela significativa desse investimento. O aproveitamento dessa janela de oportunidade, porém, depende de avanços regulatórios concretos na velocidade de conexão de grandes cargas, de investimentos consistentes em transmissão e de um ambiente de negócios que ofereça previsibilidade aos investidores de longo prazo.

Para o mercado de M&A, o ciclo que se abre é de consolidação acelerada, com prêmios de valuation para ativos que consigam demonstrar, de forma auditada e documentada, sua capacidade de atender à demanda de IA com confiabilidade, escala e sustentabilidade.

As utilities que se posicionarem como fornecedoras estratégicas de energia para a infraestrutura digital, com portfólios diversificados, contratos de longo prazo e conexões elétricas já consolidadas, serão os alvos mais disputados dos próximos cinco a dez anos. As transações que não incorporarem em suas due diligences as novas dimensões de risco introduzidas pela demanda digital — que incluem gargalos de transmissão, riscos climáticos e volatilidade regulatória — estarão sujeitas a destruições de valor no período pós-fechamento.

A BLB Advisor possui experiência consolidada em M&A e valuation no setor de energia e infraestrutura, com uma equipe multidisciplinar formada por economistas, engenheiros financeiros e especialistas em regulação setorial. Nossa abordagem combina rigor técnico com profundo conhecimento das dinâmicas do setor elétrico brasileiro, integrando análise de fluxo de caixa descontado, modelagem de cenários e due diligence regulatória. Se sua empresa ou fundo está avaliando uma aquisição, fusão ou desinvestimento no setor de energia, entre em contato com nossa equipe e descubra como podemos apoiar sua tomada de decisão.

 

Autoria de Henrique Nobile e revisão técnica de Pedro Junqueira
BLB Advisor

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