O mundo vive um dos maiores ciclos de investimento privado em infraestrutura tecnológica já registrados, e a inteligência artificial (IA) está no centro desse movimento. As cinco maiores empresas de tecnologia dos Estados Unidos devem investir cerca de US$ 700 bilhões em ativos fixos apenas em 2026, sendo a maior parte direcionada a data centers e ao poder computacional que sustenta a IA.
Esse esforço de capital impulsionou uma corrida global por terrenos, energia e equipamentos, colocando no topo da agenda dos investidores um ativo que, até pouco tempo atrás, permanecia discreto: o data center.
Recentemente, o Brasil entrou nessa rota. Nos últimos dois anos, o país acumulou mais de R$ 150 bilhões em anúncios de investimento em data centers e consolidou a liderança na América Latina. Até o fim de 2026, segundo a Brasscom, o setor deve receber cerca de US$ 11,4 bilhões, com potencial de atrair aproximadamente US$ 33 bilhões até 2030. Mais do que um tema relacionado à tecnologia, trata-se de uma nova classe de ativos de infraestrutura, intensiva em capital e regida por uma lógica própria de financiamento, avaliação e operações de fusões e aquisições (M&A).
A força que atrai esse capital para o Brasil tem nome: energia limpa. Com uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo, o país oferece aos grandes operadores uma forma direta de reduzir a pegada de carbono de suas operações. Ao mesmo tempo, a viabilização desses projetos esbarra em gargalos concretos de conexão à rede, de licenciamento e de carga tributária, que o novo regime de incentivos, o Redata, tenta destravar.
Levando tudo isso em consideração, neste artigo abordaremos a dimensão global desse fenômeno e o papel da IA como motor do novo ciclo de investimentos. Também analisaremos as razões que colocaram o Brasil no mapa dos data centers, o desenho do Redata e dos incentivos tributários, os gargalos relacionados à oferta de energia e à conectividade, as formas de financiamento dessa nova infraestrutura e, por fim, a crescente onda de fusões e aquisições, bem como o que ela revela sobre a avaliação de ativos digitais.
A escala global: a IA como motor de um superciclo de capital
O tamanho dos números ajuda a entender a pressa que está por trás dessa corrida. Os investimentos globais ligados à IA somaram US$ 252,3 bilhões em 2024 e podem alcançar US$ 456 bilhões em 2026, de acordo com o AI Index Report da Universidade de Stanford. Na tramitação do novo marco do setor, estimativas citadas no Congresso apontam que o mercado mundial de data centers movimentará cerca de R$ 1,6 trilhão em 2026, com investimentos acumulados projetados entre US$ 3,7 trilhões e US$ 7,9 trilhões no período de 2025 a 2030.
O que diferencia este ciclo dos anteriores é a natureza da demanda. Um data center dedicado à IA consome até dez vezes mais energia do que um data center tradicional de nuvem, uma vez que o treinamento e a inferência de modelos exigem milhares de processadores gráficos operando de forma contínua. Essa nova realidade transformou a disputa pela capacidade computacional em uma corrida por energia, terrenos e infraestrutura de rede, o que explica por que alguns investidores passaram a buscar e a priorizar regiões que detêm esses três recursos.
Por que o Brasil entrou no mapa dos data centers: energia limpa e powershoring
O principal trunfo brasileiro é a matriz elétrica. Com cerca de 90% da geração de energia proveniente de fontes renováveis em 2024, o país permite que operadores pressionados por metas climáticas reduzam de imediato a pegada de carbono de suas operações. Surge, a partir disso, o conceito de powershoring ― isto é, a ideia de exportar energia limpa de forma indireta, processando dados no país em vez de enviar eletricidade para fora ―, que posiciona o Brasil em lugar de destaque para atrair cargas internacionais de processamento.
Os projetos já em curso revelam a dimensão desse movimento. A Scala Data Centers está investindo R$ 3 bilhões na Scala AI City, em Eldorado do Sul (RS) ― concebida como a primeira cidade de data centers de IA do país, com capacidade prevista de 4,75 GW ― e R$ 6,2 bilhões na expansão do campus de Tamboré (SP), atualmente considerado o maior complexo de data centers da América Latina. No Ceará, a parceria entre a Casa dos Ventos, a Pátria e o TikTok prevê a construção de um complexo no Porto do Pecém, com investimento total estimado em R$ 150 bilhões. Desse montante, R$ 50 bilhões serão destinados à primeira fase do projeto, que terá capacidade de 1,5 GW e início de operação previsto para 2027. Esse conjunto de projetos ajuda a explicar por que o Brasil concentra cerca de 40% dos investimentos do setor na América Latina.
O Redata e a corrida por incentivos
Para transformar os projetos anunciados em obras concretas, o país avançou ao criar um regime tributário específico. Em fevereiro de 2026, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 278/2026, que cria o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata), e o texto posteriormente seguiu para o Senado. O regime em questão suspende, por cinco anos, tributos federais, como o Imposto de Importação, o PIS/Cofins e o IPI na compra de equipamentos, convertendo a suspensão em isenção depois de cumpridas as contrapartidas. A renúncia fiscal estimada pelo governo é de cerca de R$ 5,2 bilhões em 2026 e de R$ 1 bilhão em cada um dos dois anos seguintes.
As contrapartidas explicam a lógica do programa. Sendo assim, para aderir, a empresa precisa:
- honrar toda a sua demanda de energia com fontes limpas ou renováveis;
- manter um índice de eficiência hídrica igual ou inferior a 0,05 litro por kWh;
- destinar ao mercado interno um mínimo do processamento instalado; e
- investir 2% do valor dos equipamentos em pesquisa e desenvolvimento no país.
O incentivo é relevante porque, segundo operadores do setor, a carga tributária sobre a importação de servidores cai de cerca de 38% para perto de zero. Como as regras da reforma tributária só passam a valer a partir de 2027, o Redata funciona como uma ponte para o país não perder investimentos para concorrentes como Chile e Argentina.
Energia e conexão: o gargalo que decide os projetos
O entusiasmo com os anúncios contrasta com a realidade da rede elétrica. Os pedidos de conexão de data centers ao sistema de transmissão somavam 26,2 GW em novembro de 2025, indicando alta de 32% após o Redata, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Para dimensionar o salto, o Brasil tem hoje menos de 1 GW de data centers em operação, de modo que esses pedidos, se todos se concretizassem, representariam mais de um quarto de toda a demanda elétrica do país. A própria EPE pondera que muitos projetos requerem acesso à rede em estágio inicial, antes de garantir contratos, o que exige cautela no planejamento da transmissão.
Diante desse cenário, a conta de energia pode ajudar a entender o desafio. A título de ilustração, um único data center de 100 MW operando de forma contínua consome cerca de 876 GWh por ano (100 MW multiplicados por 8.760 horas), o suficiente para abastecer centenas de milhares de residências. Não por outro motivo, a tendência é que o consumo de eletricidade dos data centers brasileiros mais do que dobre até 2029, saltando de 1,7% para 3,9% da demanda nacional, conforme levantamento do MIT Technology Review Brasil. Garantir energia firme, renovável e a preço competitivo passou a ser o fator que separa um projeto viável de um anúncio que não sai do papel.
Como a nova onda se financia
A intensidade de capital desses projetos exige instrumentos de financiamento à altura, e o mercado de capitais tem cumprido esse papel. Em 2025, as empresas brasileiras captaram cerca de R$ 178 bilhões em debêntures incentivadas e de infraestrutura, registrando um verdadeiro recorde. Embora os data centers ainda não constem explicitamente na lista de projetos prioritários da Lei 12.431/2011, a Resolução 780/2025 da Anatel passou a reconhecê-los como parte da infraestrutura de telecomunicações, o que abre caminho para o enquadramento do setor nesse tipo de captação.
O financiamento público também se reposiciona. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) prepara um fundo dedicado tanto à IA quanto a data centers e analisa propostas por meio de linhas como Fust, Finem e BNDESPar. Em qualquer caso, a viabilidade do crédito depende da mesma base: contratos de energia de longo prazo e clientes-âncora que sustentem a receita. É nesse ponto que o financiamento de projeto — ou project finance, modalidade em que a própria geração de caixa do empreendimento serve como garantia da dívida — se torna decisivo, abrindo espaço para que entrem as operações estruturadas.
A onda de M&A e a avaliação da infraestrutura digital
O apetite por capital também redesenha a propriedade dos ativos. Em abril de 2026, o fundo norte-americano I Squared Capital assumiu o controle da Elea Data Centers, com cerca de 67% da companhia, além de um aporte inicial de R$ 2,5 bilhões e um plano de expansão estimado em US$ 10 bilhões, que inclui o Rio AI City, complexo de até 1,5 GW projetado para o Parque Olímpico do Rio de Janeiro. Movimentos como esse mostram um setor em consolidação, no qual operadores globais e fundos de infraestrutura avançam, enquanto operadores menores se tornam alvos ou parceiros.
No entanto, avaliar esses ativos exige um olhar próprio, já que um data center se aproxima de um ativo de infraestrutura, com valor concentrado tanto em contratos de longo prazo e em capacidade de energia assegurada quanto na localização. Por isso, a avaliação econômica combina o fluxo de caixa descontado com referências por capacidade contratada, de modo que o múltiplo sobre o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (EBITDA) só é informativo quando a receita é recorrente e a energia, contratada. Nesse contexto, a diligência prévia ganha ainda mais relevância ao verificar contratos de energia, a situação fundiária, o licenciamento ambiental e o cumprimento das contrapartidas do Redata, itens que afetam diretamente o valor da operação.
Uma onda de capital que exige disciplina
A combinação de IA, energia limpa e incentivos colocou o Brasil diante de uma janela de investimentos rara. Os números são expressivos, mas a distância entre o anúncio e a operação é grande e depende de energia estável, conexão à rede, licenciamento e segurança jurídica. A mesma exuberância que atrai capital também produz projetos especulativos, e separar um do outro é o trabalho que define o resultado de cada aporte.
Para o investidor e para o empresário, a lição que fica é que essa nova onda recompensa a disciplina na estruturação financeira de projetos. Garantir energia contratada, clientes-âncora e uma estrutura de capital adequada vale mais do que anunciar gigawatts, e é isso que sustenta uma operação de fusão e aquisição bem-sucedida no setor.
O Grupo BLB, por meio da BLB Advisor, possui experiência consolidada em avaliação econômica, assessoria em fusões e aquisições e também em operações estruturadas, com uma equipe multidisciplinar formada por economistas, contadores e especialistas em finanças. Nossa abordagem integra fluxo de caixa descontado, modelagem de projetos, análise da qualidade dos lucros e diligência prévia, de modo a sustentar decisões de investimento em infraestrutura digital.
Se a sua empresa avalia investir, financiar ou vender ativos ligados a data centers e tecnologia, entre em contato com a nossa equipe e descubra como podemos apoiar a sua decisão com rigor técnico e visão de longo prazo.
Autoria de Henrique Nobile e revisão técnica de Pedro Junqueira
Divisão de Finanças e M&A
BLB Advisor


