Family offices no M&A global: o novo grande player das fusões e aquisições

Family offices no M&A global: o novo grande player das fusões e aquisições

8 minutos de leitura

O mercado de M&A sempre foi dominado por fundos de private equity (PE), grandes corporações e investidores institucionais. Mas uma força crescente e menos comentada vem redefinindo quem senta à mesa nas transações mais relevantes do mundo: os family offices.

O recém-publicado 2026 Global Family Office Report do J.P. Morgan — que ouviu 333 family offices em 30 países, com patrimônio coletivo estimado em US$ 518 bilhões — oferece um panorama inédito sobre como essa classe de investidor está se posicionando. E os dados são reveladores para quem atua no ecossistema de M&A.

Um capital silencioso, mas cada vez mais ativo

Antes de mais nada, os family offices deixaram de ser simples estruturas de gestão patrimonial. Hoje, são plataformas de investimento sofisticadas, com alocações que rivalizam com grandes fundos institucionais. Em média, 30,8% dos ativos globais dessas estruturas estão em investimentos privados — um volume que praticamente empata com as alocações em renda variável pública (38,4%).

Mais do que o percentual, chama a atenção a direção do movimento: 37% dos family offices globais planejam aumentar sua exposição a private equity nos próximos 12 a 18 meses, representando a maior intenção de incremento entre todas as classes de ativos analisadas. Na prática, a tendência é que o número de family offices que ampliam suas alocações em ativos privados já seja 2,5 vezes maior do que o das estruturas que as reduzem.

Para o mercado de M&A, isso se traduz em uma mensagem direta: existe capital abundante, paciente e em busca de oportunidades de entrada em empresas privadas.

Da gestão passiva ao M&A estratégico: a virada dos family offices

O relatório do J.P. Morgan destaca que os family offices estão se tornando fontes de capital altamente estratégicas para empresas privadas e investidores, capazes de agir com rapidez, comprometer capital de forma flexível e construir parcerias de longo prazo. Essa característica tem implicações diretas para o M&A:

  1. Velocidade de decisão: sem os processos burocráticos de comitês múltiplos típicos de fundos institucionais, os family offices podem fechar negócios com maior agilidade. Esse é um diferencial competitivo real em processos de M&A disputados.
  2. Horizonte de longo prazo: com foco multigeracional, não há pressão por múltiplos de saída em janelas de 5 a 7 anos. Isso os torna parceiros atrativos para empresas que buscam um sócio estratégico sem o relógio do fundo correndo.
  3. Capital paciente para setores de tese: os temas prioritários de investimento apontados no relatório — inteligência artificial (65%), inovação em saúde (50%), infraestrutura (41%) e segurança global e defesa (34%) — indicam exatamente onde esses capitais estão buscando alvos de M&A nos próximos anos.

Estruturas de acesso: como os family offices entram nas transações

O relatório detalha como os family offices estruturam suas posições em ativos privados, e isso é um mapa valioso para quem origina, estrutura ou assessora transações:

  • 67% utilizam drawdown funds (fundos de private equity tradicionais);
  • 64% investem em participações minoritárias via posições de controle direto;
  • 49% mantêm posições majoritárias diretas em empresas;
  • 40% alocam por meio de fundos de fundos;
  • 35% utilizam evergreen funds (estruturas de capital permanente).

O dado sobre posições majoritárias e minoritárias diretas é especialmente relevante: quase metade dos family offices está disposta a ser coinvestidora, compradora estratégica ou parceira de controle em transações de M&A, sem a intermediação de um fundo.

O paradoxo da AI: ambição sem infraestrutura

Um dos achados mais interessantes do relatório — e com implicações diretas para o fluxo de negócios de M&A — é o que o J.P. Morgan chama de “AI ambition outpaces allocation.

De acordo com o relatório, 65% dos family offices pretendem priorizar investimentos em IA. Porém, mais da metade não tem qualquer exposição a growth equity ou venture capital, que são os estágios em que a inovação em aplicações de IA está de fato acontecendo. Ao mesmo tempo, 79% não realizam alocação em infraestrutura, o que inclui os data centers, as redes e os sistemas de energia que sustentam a IA.

Isso abre uma janela de oportunidade em M&A para plataformas de IA em estágio intermediário (Series B/C), empresas de infraestrutura digital e negócios de saúde com componente tecnológico. Esses são exatamente os perfis que os family offices buscam, mas ainda são pouco representados em suas carteiras.

Risco geopolítico e reposicionamento de portfólio

O relatório do J.P. Morgan foi conduzido entre maio e julho de 2025, período marcado por tensões geopolíticas, pressões tarifárias e incerteza sobre a política monetária. Como resultado, o risco geopolítico foi o mais citado globalmente (20% como principal preocupação), seguido por juros, crescimento econômico, inflação e política comercial.

No contexto de M&A, isso se traduz em:

  • Maior apetite por ativos defensivos: os family offices que elegem a geopolítica como risco principal alocam duas vezes mais em ouro e 5 pontos percentuais a mais em renda fixa. Em M&A, buscam empresas com receitas recorrentes e menos expostas a cadeias globais fragmentadas.
  • Reposicionamento geográfico: escritórios internacionais mostram um forte interesse em ações europeias (34%) e infraestrutura (27%), alinhados à onda de gastos com defesa e energia que a Europa vive. Para bancos de investimento e assessores de M&A com presença no continente europeu, esse é um sinal de demanda real.
  • Diversificação fora dos EUA: enquanto escritórios americanos têm 34,3% em private investments, os internacionais têm 25,6% — uma lacuna que indica espaço para crescimento e maior atividade transacional fora do mercado americano.

Empresas familiares com negócios operacionais: o segmento mais ativo

O relatório dedica um capítulo inteiro a um recorte que é central para o M&A: família com negócio operacional separado. Quase 6 em cada 10 respondentes (58%) possuem um negócio operacional além do family office.

Esse segmento apresenta dinâmicas únicas para transações:

  • É mais propenso a buscar assessoria externa (31% vs. 22% das famílias sem negócio);
  • Possui uma governança mais estruturada: conselhos de administração (36% vs. 27%), comitês mistos de investimento (45% vs. 35%) e constituições familiares (66% vs. 51%);
  • 41% dos respondentes identificam conflito familiar como um dos três maiores riscos —quase o dobro das famílias sem negócio.

Para o M&A, essa combinação é significativa: famílias empresárias estão mais preparadas para processos de desinvestimento parcial, entrada de sócio estratégico ou fusão. Além disso, também são mais conscientes dos riscos de governança que uma transação mal estruturada pode trazer.

O que isso significa para o setor de M&A?

Os dados do relatório do J.P. Morgan convergem para algumas conclusões práticas:

  • Para originadores de negócios ou transações: os family offices são compradores ativos e subestimados. Isso significa que processos de M&A que não os incluem como potenciais adquirentes estão deixando de competir com um tipo de capital cada vez mais relevante, especialmente em teses de IA, saúde, infraestrutura e defesa.
  • Para assessores financeiros: a sofisticação dos family offices Eles terceirizam a execução, mas mantêm o controle estratégico. O principal critério na seleção de advisors é a confiança e o alinhamento de valores (78%), acima do histórico de resultados (51%). Relacionamento de longo prazo importa mais do que a reputação no mercado.
  • Para empresários que recebem propostas de investimento: um family office como sócio tem um perfil diferente de um fundo de PE. O horizonte é mais longo, a estrutura de governança pode ser mais colaborativa, e os critérios de saída são menos rígidos. Vale entender esse perfil antes de estruturar qualquer negociação.
  • Para gestores de fundos: o relatório mostra que os family offices preferem coinvestir em operações de tamanho significativo, buscando retornos acima de 11% com alocações acima de 40% em privados. Fundos que oferecem acesso a oportunidades de investimento qualificado e coinvestimento têm vantagem competitiva nessa captação.

Conclusão: o capital mais paciente do mundo quer fazer M&A

O 2026 Global Family Office Report do J.P. Morgan confirma uma tendência que muitos no mercado já percebiam de forma intuitiva: os family offices deixaram de ser coadjuvantes nas grandes transações para se tornarem protagonistas.

Com US$ 518 bilhões em patrimônio agregado, apetite crescente por private equity, exposição direta em empresas e horizonte de investimento multigeracional, esses players estão redefinindo o que significa ser um comprador estratégico no M&A global.

Para empresas em crescimento, donos de negócios pensando em sucessão ou liquidez parcial e profissionais que vivem de originar e estruturar transações, ignorar os family offices é o mesmo que recusar uma das maiores oportunidades do mercado atual.

Se você está de um lado ou do outro dessa mesa — seja como empresário em busca do sócio certo, seja como family office avaliando sua próxima alocação —, a BLB Advisor tem experiência para estruturar sua operação de ponta a ponta. Fale com nossos especialistas.

Autoria de Gustavo Ferreira e revisão técnica de Pedro Junqueira
BLB Advisor

Fonte: Este artigo foi elaborado com base nos dados do 2026 Global Family Office Report, publicado pelo J.P. Morgan Private Bank. O relatório consolida respostas de 333 family offices em 30 países, com patrimônio médio de US$ 1,6 bilhão por família.

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